se eu não fosse eu

Uma vez, a Clarice escreveu um texto intitulado "Se Eu Fosse Eu", com toda a sua incrível sensibilidade de traduzir a natureza humana. Eu adoro aquele texto, de verdade, e não sei bem o porquê, mas não me identifico. Eu acho que eu fui eu a minha vida toda. Eu fui eu até quando não aguentava mais ser eu. Eu tenho sido muito eu, e me percebo cada vez mais, e por vezes eu sinto que tenho sido tão ruim, que penso "e se eu não fosse eu?". Não sei como seria. 

Converso com pessoas diversas para checar se alguns hábitos meus são realmente só meus ou se as pessoas de uma forma geral consideram aquele comportamento comum. Sou tão eu, que sinto medo. Acho que, para mim, ser eu seja tão único que eu possa parecer louca. Se eu não fosse eu, é possível que algumas coisas fossem mais fáceis. E outras mais difíceis, porque tudo tem uma contrapartida. 

Se eu não fosse eu, talvez eu soubesse amar diferente, e talvez não tivesse interesse em aprender o que é isso de amar incondicionalmente. Incondicionalmente é mesmo sem nenhuma condição. Eu acho que sempre amei cheia de condições, e quem sabe isso não fora culpa da minha criança interior ferida, bem no começo da vida, se é que existe alguém a se culpar?

A verdade é que me perguntar o que eu faria, se eu fosse eu, é uma pergunta com respostas, e não revelaria muito, senão a minha potencial incapacidade de ser autêntica. Mas se eu não fosse eu, eu simplesmente não sei como a vida seria. 

Há uma coisa com a qual concordo sobre o que Clarice disse, e que eu acredito que eu faria, se eu não fosse eu: eu entregaria o futuro ao futuro. A diferença é que ela faria isso, se ela fosse ela. Tudo o que eu mais gostaria, na mior parte do tempo sendo eu, é confiar no futuro dessa forma, entregando-o a ele mesmo.

Se eu não fosse eu, talvez nunca pensaria nisso. 


se eu fosse eu, por Clarice Lispector

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