nos braços de Morfeu, muito mais que nos meus
Não sei se eu exalava energias maternais, se meus ombros tão magros e ossudos eram vistos como bom colo, ou mesmo se era tudo culpa do meu olhar, que talvez acalmasse, mas também talvez fosse tão entediante que causava sono. Tudo o que sei é que bastava sentarmo-nos ao sofá para que ele dormisse. Nada importava: a classificação de qualquer filme passando naquele instante, se esse estava em áudio dublado ou no original, se eu me esforçava para manter uma conversa interessante - aliás, interessante para quem? -, se havia ali amor. Não passariam trinta minutos, ele dormiria.
Essa cena se repetiu por tantos dias, que passei a pensar que o problema pudesse estar em mim. Na verdade, o problema estaria em mim se eu fosse a única que enxergasse, em seu dormir, um problema. Mas se ele tinha tantas horas durante o dia para tal, por que dormia no único momento destinado a passar comigo? As suposições eram inúmeras e, no entanto, eu nunca saberia. Quando questionado, sua explicação era:
- Durmo porque tenho sono.
Todos sabem, eu sei, eu berro em pensamento: nada é tão simples assim. Não para mim.
Eu ignorei o desconforto que ali sentia por muito tempo. Tentava arrumar o que fazer enquanto ele dormia. Tentava amá-lo dormindo. Às vezes, até me forçava a dormir junto, porque "quem sabe assim o tempo não passa mais rápido?". Que tipo de pessoa obcecada era eu, incapaz de admirar alguém com quem escolhi dividir a vida a praticar tão pura e profunda atividade?
Não consegui mais. Perdia muito tempo. Ver filmes, caçar afazeres, tentar preencher aquele vazio esperando que acordasse: tudo isso eu poderia fazer em uma vida solo. E seria ainda mais fácil, já que não me geraria expectativa alguma.
Decidi parar de ignorar, porque nas profundezas de mim, sabia que o maior sentimento que ressoava era o de insuficiência. Coitado, fi-lo passar a se desculpar por dormir. Dormia e pedia desculpas, mas dormia! Minha vida virou esperá-lo para passarmos tempo juntos, e, enquanto juntos, esperá-lo acordar para que então fosse embora. Isso não era vida. Será que para ele era?
Demorei para que me desse conta do círculo vicioso criado. Demorei a admitir que meu relacionamento era tão difícil por ser tão ridiculamente fácil. Custei a aceitar que eu poderia estar protagonizando uma vida chata. Não é o que ninguém planeja para si, imagino que seja, igualmente, um motivo de insatisfação para ele. Não queria ser tão compreensiva assim.
Essa passividade - a minha passividade - é o maior ato de crueldade já construído em mim. Eu não me culpo por completo, mas, sem dúvidas, sou a que mais completamente sofre com essa característica. Neste contexto, minha passividade até me instigou a tentar enxergar a situação de formas diferentes... Poderia admirá-lo ao dormir; poderia divertir-me tirando fotos suas enquanto dormia; poderia mesmo fazer desse cotidiano uma história mal contada. Continuava sem sentido, não importava o que eu me dizia a fim de convencer-me de que algum ponto daquela situação era bom. Eu estava sempre sozinha.
Sabia que poderia ser a única a me tirar dali. Ele, além de dormir, não era proativo, então não precisava esperar nada que não fosse ordenado por uma autoridade - sua maior autoridade era sua mãe.
Eu estava sozinha, era como me sentia sempre. Faltava-me coragem para tomar uma ação. Não entendo, hoje, o porquê, dado que já estava sozinha, bastava avisá-lo.
Canalizei todas as reclamações de meu relacionamento nessas linhas. Ao fim, terminado o texto, terminei também o relacionamento, pois havia cumprido seu papel: o de preencher este.
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