o primeiro texto de todos é sobre o amor
Quando eu tinha seis anos e concluí a alfabetização, lembro-me de precisar escolher alguém especial, durante a cerimônia de comemoração, para que me fosse entregue o anel de formatura. Dentre as memórias que guardo deste dia, quem foi esse alguém não é uma delas - e, aliás, não foi uma opção minha.
A verdade é que eu não me lembro de quem foi a pessoa que eu genuinamente desejei que me entregasse aquele anel, embora tenha um palpite sólido: minha mãe, a pessoa que eu mais admirava na época.
Como era minha maior admiração e eu tinha apenas seis anos de idade, faria exatamente o que quer que ela dissesse, e foi ela quem decidiu: quem participaria do meu tão importante momento seria o meu avô.
- Deixe-o ir, porque não sabemos por mais quanto tempo ele ficará conosco.
Não foi uma escolha ruim, no fim das contas.
No momento em que ele colocou o anel no meu dedo de criança, aquele anel com a pedra cor-de-rosa, que tenho guardado até hoje em minha caixa de lembranças, ainda me recordo da sensação de segurar o choro, olhando para ele e pensando nas palavras de minha mãe, de que, por já estar tão velho, talvez não durasse por mais tanto tempo.
Hoje, tenho vinte anos, estou quase me formando médica, meu avô ainda está vivo - e muito bem - e minha mãe continua morrendo de medo da morte.
Enquanto apenas uma criança, era impossível enxergar as coisas como elas realmente são para mim, provavelmente porque os adultos saberiam mais e eu confiasse tanto nos meus pais que não teria o que questionar.
No entanto, agora, repasso os eventos vividos e eu não sei se já vi minha mãe amar o meu avô simplesmente por amá-lo.
Em todas as memórias de amor, havia ali, lado a lado, e, quiçá, até maior, o medo de que ele morresse.
É possível que amor e medo andem juntos - ora, jamais alguém que ama desejaria perder o que é amado -, mas como pode um sentimento tão puro e leve ser acompanhado de outro tão pesado?
Viver com medo é incrivelmente comum. Tão comum quanto horrível. E eu sei que ainda há muito o que aprender, desaprender e reconstruir, mas se existe algo que eu já dei por entendido tendo vivido dos meus seis anos até aqui, isto é que praticamente nada se controla, e a vida simplesmente acontece.
E que talvez, apenas talvez, as memórias de amor sejam muito melhores se forem apenas de amor, sem medo.
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